terça-feira, 21 de outubro de 2025

Terremoto no Chile e voltando para casa

 15, 16, 17, 18 e 19 de setembro de 2015


O imprevisível desfecho da nossa aventura no Atacama

Acordamos bem cedo no nosso último dia em San Pedro de Atacama. Tomamos o café da manhã no Hotel Dunas, fizemos o check-out e aguardamos o motorista do transfer até o Aeroporto de Calama — o Felipe, o mesmo que nos levou para conhecer as incríveis Lagunas Altiplânicas e Piedras Rojas (um dos meus lugares favoritos dessa viagem). Em cerca de 1h30 de estrada, chegamos ao aeroporto.

Mas, como já tínhamos visto na internet na noite anterior, os rumores se confirmaram: todos os funcionários do sistema aeroviário do Chile estavam em greve. Ou seja, ninguém entrava ou saía do país por via aérea.

No guichê da LAN/TAM, os poucos funcionários presentes nos orientaram a ir até a agência da empresa no centro de Calama — por conta própria. Pegamos um táxi e, como já sabíamos, nem adiantava pedir recibo para tentar ressarcimento. Na noite anterior, pesquisei sobre os direitos dos passageiros em casos de cancelamento por greve ou condições climáticas, e a resposta era clara: as companhias aéreas não têm obrigação de cobrir custos adicionais nesses casos.

Na agência da LAN, localizada em uma das ruas principais da cidade, enfrentamos quase duas horas de espera. A agência estava lotada de passageiros buscando realocação em voos futuros. Quando finalmente fomos atendidos, a funcionária, muito simpática, nos explicou que havia voos disponíveis na mesma classe tarifária que a nossa... só dali a quatro dias.

"Quatro dias?!" — pensei, em choque. Eu precisava trabalhar no dia seguinte! Ela nos ofereceu um voo para o dia seguinte, mas apenas com mudança de tarifa: aproximadamente R$ 1.000,00 por pessoa. Um valor completamente fora de cogitação.

Ainda bem que, prevendo esse cenário, na noite anterior já havíamos pesquisado hotéis em Calama. Encontramos várias opções com quarto triplo por cerca de R$ 300,00 a diária. Fizemos as contas e rapidamente vimos que era mais barato (mesmo com hospedagem, almoço e jantar para os três) esperar os quatro dias em Calama do que pagar os R$ 3.000,00 extras para retornar antes. Meu pai e o Elio não tinham compromissos urgentes, e eu, infelizmente, teria que aceitar dois dias de falta no trabalho.

Com o novo plano definido, encontramos um bom hotel ali mesmo, ao lado da agência da LAN — o Hotel El Mirador. Fizemos o check-in e saímos para almoçar.

Calama, sinceramente, não tem muito a oferecer. A cidade é bem simples e, visualmente, pouco atrativa. Uma das únicas atrações turísticas é a mina de cobre de Chuquicamata, a maior do mundo. Mas não tivemos sorte: ela estaria fechada nos dias em que ficaríamos ali, devido às festas pátrias. Nossa única distração virou o shopping da cidade. Nada contra um bom shopping, mas depois de uma aventura épica no Atacama, aquilo parecia muito sem graça.

Mas a aventura ainda não tinha acabado.

No dia 16 de setembro, por volta das 19h55, eu estava sentada na cama do meu pai, conversando com ele, quando tudo começou a tremer. Olhei para o lustre pendente e vi que ele balançava de um lado para o outro. Mantive a calma e disse:
“Pai, é um terremoto.”
Chamei o Elio, que estava no banheiro, e saímos rapidamente do quarto. Ainda bem que o hotel era térreo. Fomos para o pátio, onde outros hóspedes também estavam reunidos, assustados e eufóricos. Os sinos da igreja próxima começaram a tocar ininterruptamente por quase dois minutos, alertando a população.

Passado o susto inicial, saímos para jantar. No restaurante, a TV estava ligada e só então tivemos noção da dimensão do que havia acontecido: um terremoto de magnitude 8,4 na Escala Richter, o mais forte dos últimos anos no Chile. O epicentro havia sido a mais de 1.300 km de onde estávamos, mas as cidades litorâneas precisaram ser evacuadas devido à ameaça de tsunami.

Ficamos chocados. A gente tinha ido ao Chile para subir montanha, mas acabamos experimentando um pedaço da natureza que jamais esperávamos sentir: um terremoto de verdade.


A sensação de sentir a terra tremer sob os meus pés como se fosse uma gelatina foi, ao mesmo tempo, incrível e surreal. É difícil descrever. Foi um daqueles momentos que parecem saídos de um filme, mas você está ali, vivendo tudo em tempo real. Porém, o que mais me marcou não foi a tremedeira em si, mas o desespero real das pessoas ao nosso redor. Ver os chilenos pegando seus celulares com as mãos trêmulas, tentando falar com parentes de outras regiões para saber se estavam bem, foi profundamente comovente.

Na televisão, cenas da evacuação de cidades litorâneas inteiras. A cada imagem, o peso da realidade: em poucos segundos, famílias perdem tudo o que construíram em uma vida. Casas, comércios, sonhos. É impossível não se emocionar. Até hoje, quando lembro, sinto um nó na garganta. Momentos como esse só reforçam em mim a certeza de que somos frágeis e pequenos diante da força da natureza, e que por isso mesmo precisamos viver cada segundo com intensidade e propósito.

A maior destruição causada pelo terremoto veio com as tsunamis que atingiram o litoral chileno. Ondas de mais de cinco metros devastaram cidades, arrastaram casas, lojas, mercadorias. A poucos dias das festas pátrias, muitos comerciantes perderam tudo que haviam estocado para o feriado — e mesmo assim, no dia seguinte, já estavam nas ruas, limpando, reconstruindo, com uma expressão no rosto que dizia mais que mil palavras: “bola pra frente”. Uma resiliência que, sinceramente, raramente vejo no Brasil após tragédias dessa magnitude.

Impressões finais da viagem

Foi tudo muito intenso. As paisagens áridas e coloridas do deserto, a subida da nossa primeira alta montanha, o terremoto inesperado. O Chile é isso: fortes emoções em todos os sentidos. Mas, se eu tiver que destacar uma única coisa que mais me impressionou em toda essa aventura, sem dúvida foi a força e a garra do povo chileno. Um povo que convive com a instabilidade geológica como parte do cotidiano, mas que não se entrega. Que perde, sofre, reconstrói e segue.

Sofredores? Não sei. Mas guerreiros, com certeza.


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