terça-feira, 21 de outubro de 2025

Cerro Toco no Deserto do Atacama

 14 de setembro de 2015


Finalmente, o grande dia havia chegado! Nossa montanha, a mais alta que já havíamos encarado até então, ultrapassando os 5 mil metros de altitude. Até aquele momento, eu, Carla, havia subido o Nevado Pastoruri (5.039m) e o Paso Cuyoc (5.000m), ambos no Peru. Já o Elio, por sua vez, havia conquistado o Diablo Mudo (5.350m) e o Paso Santo Antônio (5.050m), também no Peru, durante um dos trekkings mais deslumbrantes do mundo, o Trekking Huayhuash. E hoje era o dia de batermos nosso recorde, rumo às montanhas de 6 mil metros do nosso projeto para 2016: o Cerro Toco, com 5.640 metros de altitude. Em breve, vou contar mais sobre esse nosso novo projeto.

Após o café da manhã no Hotel Dunas, o nosso guia e amigo Mário, da Maxim Experience, nos pegou. Seguindo sua orientação do dia anterior, decidimos não jantar carne, pois ele havia explicado que a digestão de alimentos pesados, como a carne, poderia causar mal-estar em altitudes elevadas. Optamos por massas, mais leves e ricas em energia. Meu pai, com 71 anos, não nos acompanhou nessa jornada. Por ser cardíaco, ele sabia que o esforço em grandes altitudes poderia ser perigoso, então ficou em San Pedro para descansar.

De carro 4x4, subimos lentamente até os 4.700 metros e fizemos uma pausa para um lanche. Nessa altura, o Mário já começava a se sentir mal. Seguimos mais 45 minutos de carro até alcançar 5.100 metros, onde estacionamos. O Mário desceu do carro e vomitou. Apesar de ser um guia experiente, ele explicou que o mal-estar era consequência de um churrasco que ele havia feito na noite anterior, e não resistiu a um pedaço de carne. Perguntei se ele queria desistir da expedição (afinal, nosso principal objetivo na viagem era alcançar o topo, mas jamais seguiríamos em frente sem um membro da equipe bem). Ele se recuperou logo após o vômito e, 15 minutos depois, estávamos prontos para continuar.

O Cerro Toco tem uma grande vantagem: podemos subir totalmente a pé, sem necessidade de escaladas ou trechos difíceis. Normalmente, leva-se 3 horas para chegar ao topo e 1 hora para descer, sempre respeitando o ritmo do corpo e a adaptação à altitude. A Maxim Experience nos forneceu luvas de alta montanha, gorros, bastões – tudo o que precisávamos para garantir nossa segurança. Optamos por pegar apenas as luvas, já que as nossas não eram tão específicas para altas altitudes.

Começamos a caminhada às 9h41 e atingimos o pico às 12h38. A primeira parte da subida foi tranquila, com os primeiros 10 minutos sendo mais difíceis, até o corpo começar a aquecer e se adaptar. A partir daí, a caminhada fluiu bem, sempre respeitando o meu ritmo e ouvindo o meu corpo. Eu estava ótima, apesar dos meus 95 quilos. Sim, sou uma mulher grande (gordinha, IMC 31 - obesidade leve), mas segui no meu tempo, com calma e persistência. O guia ficou surpreso com o meu desempenho e até sugeriu um atalho. Ah, se ele soubesse como eu odeio atalhos…


Vulcão Lincancabur



Cerro Toco a direita

Observatório da Universidade da Virgínia

Vista subindo o Cerro Toco










Ziguezagueando na trilha




Parada para descansar de desfrutar a vista

Minha maior dificuldade foi, sem dúvida, o atalho que o guia resolveu pegar no meio do caminho. Além de ser bem mais íngreme, o terreno era cheio de pedras soltas, o que exigia muito mais esforço físico e concentração. Eu realmente detesto atalhos – prefiro um caminho mais longo, mas com terreno mais estável e previsível. O pior é que ele nem nos consultou antes de decidir seguir por ali. Simplesmente apontou e foi, e claro, seguimos juntos.

Acho que ele se arrependeu. Aquele trecho, de quase 200 metros de subida em pedras soltas, me desgastou demais. Foi o ponto mais difícil da trilha para mim. Subi devagar, parei várias vezes para descansar, sentei quando o cansaço apertou, respirei fundo e segui no meu ritmo. Apesar disso tudo, conseguimos manter o tempo estimado da trilha, o que me deixou bastante orgulhosa. Foi um baita desafio físico e mental.

Estava frio. Muito frio! O vento cortava, e mesmo bem agasalhados, era impossível ignorar o desconforto térmico. A altitude, o terreno e o clima exigem muito da gente. Mas, mesmo com todas essas dificuldades, cada passo valia a pena. A paisagem, o silêncio das alturas e a sensação de estar superando limites tornavam tudo mais significativo.






Depois do sufoco do atalho, a trilha voltou a ser o que eu chamo de “normal e caminhável” — ou seja, um terreno mais firme, com inclinação constante, mas sem surpresas. Foi um alívio. Ainda assim, estávamos em alta montanha, e o ar rarefeito começava a mostrar suas garras. Bastavam dez passos para o coração acelerar e a respiração pesar. Cada parada era preciosa para recuperar o fôlego e manter o foco.

O guia, empolgado ou talvez querendo acelerar o ritmo, sugeriu mais um atalho. Dessa vez, fomos firmes: caminho tradicional, por favor! Chega de atalhos. Àquela altura, entendemos de vez que respeitar o próprio ritmo era a chave para chegar ao topo com segurança e dignidade — e principalmente, com algum prazer no percurso.


Vista subindo o Cerro Toco





Descansando um pouco mais


Laguna Blanca na Bolívia ao fundo


Reta final

Chegamos! Uhu!
Apesar do GPS marcar 5.612 m, oficialmente o Cerro Toco tem 5.640 m.

Do alto do Cerro Toco, a vista era simplesmente deslumbrante. Lá de cima, avistamos a belíssima Laguna Blanca, que já havíamos conhecido quando fizemos a travessia do Salar de Uyuni, na Bolívia. Foi como reencontrar um velho amigo, agora sob uma nova perspectiva — lá de cima, tudo parecia mais silencioso, mais imenso, mais mágico.

À nossa frente, imponente, estava o vulcão Licancabur, quase no mesmo nível que nós. A diferença é que ele exige uma subida bem mais técnica e desafiadora. Só de olhar, já dava para sentir o respeito que aquela montanha impõe. Ainda assim, estar ali, tão perto dele, nos fez sonhar — quem sabe um próximo desafio?

Ali no topo do Toco, com os pés cravados nos 5.640 metros de altitude, senti uma mistura de exaustão, alegria e gratidão. Todo o esforço, cada passo lento, cada pausa para respirar, tudo havia valido a pena. Mais uma montanha conquistada, mais um limite ultrapassado.


Laguna Blanca

Vale que vai para o Paso Jama na Argentina





No cume, fizemos uma pausa merecida para lanchar. Era simples, mas depois de tanto esforço, qualquer mordida parecia um banquete. Aproveitamos aqueles minutos para contemplar, em silêncio, a conquista e a paisagem surreal ao nosso redor.

Logo depois, iniciamos a descida — rápida e direta. Levamos exatamente uma hora para retornar ao ponto onde o carro estava estacionado. Curiosamente, a descida revelou paisagens ainda mais bonitas do que as da subida. O vale ao redor do Cerro Toco se abriu diante de nós como uma pintura viva, com tons terrosos, avermelhados e ocres contrastando com o céu límpido e a luz intensa do deserto de altitude.

Tudo ali era incrivelmente colorido e fotogênico. A grandiosidade da paisagem fazia a gente se sentir pequeno, mas, ao mesmo tempo, profundamente conectado à imensidão do mundo.


















Chegamos de volta a San Pedro de Atacama por volta das 15h, ainda com a adrenalina e a poeira da montanha grudadas no corpo e na memória. Fomos direto almoçar no Restaurante Barros, onde devoramos um prato bem reforçado, cheio de proteína — exatamente o que nosso corpo pedia depois de tanto esforço. À noite, fechamos o dia com um lanche na charmosa Casa de Té O2, já com aquele ar de despedida no ar.

Era nosso último dia nesse lugar tão especial, que nos presenteou com paisagens surreais, desafios superados e memórias para a vida toda. No dia seguinte, voltaríamos ao Brasil.

Mas a montanha parecia não querer nos deixar ir tão facilmente... À noite, navegando pela internet, vimos a notícia: no dia seguinte, os aeroportos de todo o Chile fariam um “dia de paro” — uma greve geral. Ninguém entra, ninguém sai. Ficamos apreensivos. Tínhamos compromissos importantes no Brasil e, de repente, tudo parecia incerto.

Fomos dormir com aquela sensação inquieta de que a aventura ainda não havia terminado. O Cerro Toco já estava no passado, mas o inesperado parecia ainda fazer parte do nosso caminho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário