🌋 Rumo à Carretera Austral e Chaitén
17 de janeiro de 2010
Acordamos cedo em Hostal Mas Patagonia e tomamos um café da manhã muito bom antes de seguir viagem. Partimos então rumo à lendária Carretera Austral, a cerca de 70 km dali.
Quando chegamos à vila de Villa Santa Lucía, pegamos a Ruta 7 em direção norte, entrando de vez em uma das estradas mais icônicas do Chile.
O destino do dia era Chaitén, uma cidade que havia sido fortemente impactada pela erupção do vulcão de mesmo nome. A região ainda carregava marcas visíveis da devastação causada pelas cinzas vulcânicas.
A Carretera Austral, nesse trecho, impressiona pela natureza bruta: montanhas úmidas, rios largos, vegetação densa e uma sensação constante de isolamento. Cada quilômetro reforça a ideia de estar atravessando uma das áreas mais remotas e fascinantes da América do Sul.
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| De Palena a Carretera Austral |
Na estrada rumo a Chaitén, passamos em frente ao impressionante Ventisquero Yelcho e decidimos parar para conhecer.
Há estacionamento na entrada e a trilha autoguiada custa PCH$ 2.000 por pessoa. A caminhada dura cerca de 1h30 e já deixa claro que vale muito a pena sair da estrada para explorar o lugar.
A trilha atravessa uma floresta úmida típica da região, com muita lama, raízes expostas e aquele clima fechado da Patagônia. É essencial ir com calçado adequado, porque o terreno realmente exige atenção.
Infelizmente, a trilha autoguiada não chega muito perto do glaciar — o ponto final fica a cerca de 500 metros do Ventisquero. Para chegar mais próximo e até fazer atividades como o famoso “whisky com gelo do glaciar”, seria necessário o passeio guiado (PCH$ 6.000 por pessoa), que só ocorre com grupo mínimo.
Mesmo assim, a experiência vale muito a pena. A vista do glaciar entre as montanhas, o som da natureza e o isolamento do lugar tornam o passeio inesquecível — um dos grandes momentos da Carretera Austral.
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| Trilha para o Ventisquero Yelcho, Carretera Austral, Chile |
Depois da visita ao Ventisquero Yelcho, seguimos viagem rumo a Chaitén.
Nos últimos 30 km antes da cidade, a estrada já estava asfaltada. O trecho de rípio da Carretera Austral ainda apresentava condições irregulares, com buracos causados pelas chuvas e manutenção limitada. Mesmo assim, era comum ver carros baixos circulando sem grandes dificuldades, o que mostrava que, apesar de rústica, a rota era plenamente trafegável.
Ao chegar em Chaitén, a sensação foi forte e difícil de descrever. A cidade ainda carregava profundamente as marcas da erupção do vulcão de 2008: ruas silenciosas, construções danificadas, áreas inteiras cobertas por cinzas e uma atmosfera de abandono misturada com resistência.
Alguns moradores insistem em permanecer ali, vivendo sob condições ainda difíceis, com limitações de infraestrutura como água e eletricidade em certos pontos. É impactante perceber que, onde antes existia uma cidade ativa e vibrante — antiga capital da província de Palena — hoje existe uma realidade fragmentada.
As cenas são marcantes: casas deixadas às pressas, objetos pessoais ainda nos lugares originais, lojas com mercadorias intactas, como se o tempo tivesse simplesmente parado no dia da evacuação. Outros moradores retornaram depois, enquanto parte da população foi realocada para áreas próximas, como Santa Bárbara, onde a administração e serviços públicos foram reorganizados.
Chaitén não é apenas uma parada na Carretera Austral — é uma experiência histórica e emocional, que mostra a força da natureza e a fragilidade das cidades diante dela.
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| Chaiten, Carretera Austral, Chile |
Em Chaitén, a paisagem vai além do impacto geológico — ela atravessa o emocional.
Entre ruas silenciosas e vestígios da antiga cidade soterrada pelas cinzas da erupção de 2008, alguns detalhes ficam difíceis de esquecer.
Uma boneca no chão, deixada no meio do abandono, sugere a pressa de uma fuga que não deu tempo de olhar para trás. Um diário adolescente encontrado entre os destroços transforma o cenário em algo ainda mais íntimo — não é apenas uma cidade perdida, mas histórias interrompidas.
Em meio à destruição, surgem sinais inesperados de vida: rosas brotando junto ao antigo posto policial, um contraste forte entre o que foi devastado e o que insiste em renascer. E nas paredes, frases como “Yo amo a Chaitén… Volveré!” carregam uma mistura de dor, apego e esperança.
Chaitén não é um lugar que se visita com indiferença. É uma experiência que confronta a fragilidade da vida urbana diante da natureza e, ao mesmo tempo, mostra como memória e pertencimento permanecem mesmo quando a cidade muda de forma.
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| Chaiten, Carretera Austral, Chile |
Depois da forte experiência em Chaitén, seguimos pela Carretera Austral rumo às Termas de Amarillo, na esperança de encontrar ao menos um lugar simples para almoçar.
Mas a realidade foi outra: as termas praticamente não tinham infraestrutura turística. Nada de restaurante, nada de lanche, nem mesmo uma porção básica de batatas fritas — apenas a natureza, no seu estado mais bruto.
Seguimos então para Villa Santa Lucía, e depois a La Junta. Como era dia de eleição presidencial no Chile, tudo estava fechado. Restaurantes, mercados, pequenos comércios — absolutamente nada aberto.
A situação começou a ficar desconfortável. Já eram cerca de 17h, e desde o café da manhã havíamos consumido apenas algumas bolachas ao longo do dia. O corpo começava a sentir o impacto de tantas horas na estrada sem alimentação adequada.
A Carretera Austral mostrou, mais uma vez, seu lado mais selvagem: linda, remota e imprevisível — onde planejamento nem sempre garante o básico.
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| De La Junta a Puyuhuapi |
Chegamos a Puyuhuapi já com a energia bem baixa depois de um dia longo e quase sem alimentação adequada na Carretera Austral.
Conseguimos uma cabana no Hostal Aonikenk, por PCH$ 13.500 por pessoa. Simples, mas acolhedora — exatamente o que precisávamos naquele momento.
O jantar foi praticamente um resgate do dia: sopa de peixe, frango, batatas, torta de chocolate, refrigerante e cerveja por PCH$ 5.000 por pessoa. Uma refeição completa, farta e muito bem-vinda depois de tantas horas na estrada sem opções abertas.
Depois disso, não teve muita conversa. Tomamos um banho, respiramos aliviados e fomos dormir cedo. Na Carretera Austral, descansar bem também faz parte da sobrevivência da viagem.



































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