terça-feira, 19 de maio de 2026

Chaiten, Ventisquero Yelcho e Puyuhuapi - Chile

 🌋 Rumo à Carretera Austral e Chaitén

17 de janeiro de 2010

Acordamos cedo em Hostal Mas Patagonia e tomamos um café da manhã muito bom antes de seguir viagem. Partimos então rumo à lendária Carretera Austral, a cerca de 70 km dali.

Quando chegamos à vila de Villa Santa Lucía, pegamos a Ruta 7 em direção norte, entrando de vez em uma das estradas mais icônicas do Chile.

O destino do dia era Chaitén, uma cidade que havia sido fortemente impactada pela erupção do vulcão de mesmo nome. A região ainda carregava marcas visíveis da devastação causada pelas cinzas vulcânicas.

A Carretera Austral, nesse trecho, impressiona pela natureza bruta: montanhas úmidas, rios largos, vegetação densa e uma sensação constante de isolamento. Cada quilômetro reforça a ideia de estar atravessando uma das áreas mais remotas e fascinantes da América do Sul.

De Palena a Carretera Austral





🧊 Ventisquero Yelcho – trilha na Carretera Austral

Na estrada rumo a Chaitén, passamos em frente ao impressionante Ventisquero Yelcho e decidimos parar para conhecer.

Há estacionamento na entrada e a trilha autoguiada custa PCH$ 2.000 por pessoa. A caminhada dura cerca de 1h30 e já deixa claro que vale muito a pena sair da estrada para explorar o lugar.

A trilha atravessa uma floresta úmida típica da região, com muita lama, raízes expostas e aquele clima fechado da Patagônia. É essencial ir com calçado adequado, porque o terreno realmente exige atenção.

Infelizmente, a trilha autoguiada não chega muito perto do glaciar — o ponto final fica a cerca de 500 metros do Ventisquero. Para chegar mais próximo e até fazer atividades como o famoso “whisky com gelo do glaciar”, seria necessário o passeio guiado (PCH$ 6.000 por pessoa), que só ocorre com grupo mínimo.

Mesmo assim, a experiência vale muito a pena. A vista do glaciar entre as montanhas, o som da natureza e o isolamento do lugar tornam o passeio inesquecível — um dos grandes momentos da Carretera Austral.

Trilha para o Ventisquero Yelcho, Carretera Austral, Chile











🌋 Chaitén – a cidade marcada pelo vulcão

Depois da visita ao Ventisquero Yelcho, seguimos viagem rumo a Chaitén.

Nos últimos 30 km antes da cidade, a estrada já estava asfaltada. O trecho de rípio da Carretera Austral ainda apresentava condições irregulares, com buracos causados pelas chuvas e manutenção limitada. Mesmo assim, era comum ver carros baixos circulando sem grandes dificuldades, o que mostrava que, apesar de rústica, a rota era plenamente trafegável.

Ao chegar em Chaitén, a sensação foi forte e difícil de descrever. A cidade ainda carregava profundamente as marcas da erupção do vulcão de 2008: ruas silenciosas, construções danificadas, áreas inteiras cobertas por cinzas e uma atmosfera de abandono misturada com resistência.

Alguns moradores insistem em permanecer ali, vivendo sob condições ainda difíceis, com limitações de infraestrutura como água e eletricidade em certos pontos. É impactante perceber que, onde antes existia uma cidade ativa e vibrante — antiga capital da província de Palena — hoje existe uma realidade fragmentada.

As cenas são marcantes: casas deixadas às pressas, objetos pessoais ainda nos lugares originais, lojas com mercadorias intactas, como se o tempo tivesse simplesmente parado no dia da evacuação. Outros moradores retornaram depois, enquanto parte da população foi realocada para áreas próximas, como Santa Bárbara, onde a administração e serviços públicos foram reorganizados.

Chaitén não é apenas uma parada na Carretera Austral — é uma experiência histórica e emocional, que mostra a força da natureza e a fragilidade das cidades diante dela.

Chaiten, Carretera Austral, Chile









🌋 Chaitén – memórias entre cinzas e recomeço

Em Chaitén, a paisagem vai além do impacto geológico — ela atravessa o emocional.

Entre ruas silenciosas e vestígios da antiga cidade soterrada pelas cinzas da erupção de 2008, alguns detalhes ficam difíceis de esquecer.

Uma boneca no chão, deixada no meio do abandono, sugere a pressa de uma fuga que não deu tempo de olhar para trás. Um diário adolescente encontrado entre os destroços transforma o cenário em algo ainda mais íntimo — não é apenas uma cidade perdida, mas histórias interrompidas.

Em meio à destruição, surgem sinais inesperados de vida: rosas brotando junto ao antigo posto policial, um contraste forte entre o que foi devastado e o que insiste em renascer. E nas paredes, frases como “Yo amo a Chaitén… Volveré!” carregam uma mistura de dor, apego e esperança.

Chaitén não é um lugar que se visita com indiferença. É uma experiência que confronta a fragilidade da vida urbana diante da natureza e, ao mesmo tempo, mostra como memória e pertencimento permanecem mesmo quando a cidade muda de forma.

Chaiten, Carretera Austral, Chile




🚗🥴 Carretera Austral – quando o planejamento encontra o vazio

Depois da forte experiência em Chaitén, seguimos pela Carretera Austral rumo às Termas de Amarillo, na esperança de encontrar ao menos um lugar simples para almoçar.

Mas a realidade foi outra: as termas praticamente não tinham infraestrutura turística. Nada de restaurante, nada de lanche, nem mesmo uma porção básica de batatas fritas — apenas a natureza, no seu estado mais bruto.

Seguimos então para Villa Santa Lucía, e depois a La Junta. Como era dia de eleição presidencial no Chile, tudo estava fechado. Restaurantes, mercados, pequenos comércios — absolutamente nada aberto.

A situação começou a ficar desconfortável. Já eram cerca de 17h, e desde o café da manhã havíamos consumido apenas algumas bolachas ao longo do dia. O corpo começava a sentir o impacto de tantas horas na estrada sem alimentação adequada.

A Carretera Austral mostrou, mais uma vez, seu lado mais selvagem: linda, remota e imprevisível — onde planejamento nem sempre garante o básico.

Carretera Austral, Chile
De La Junta a Puyuhuapi










🌙 Puyuhuapi – descanso depois da Carretera Austral

Chegamos a Puyuhuapi já com a energia bem baixa depois de um dia longo e quase sem alimentação adequada na Carretera Austral.

Conseguimos uma cabana no Hostal Aonikenk, por PCH$ 13.500 por pessoa. Simples, mas acolhedora — exatamente o que precisávamos naquele momento.

O jantar foi praticamente um resgate do dia: sopa de peixe, frango, batatas, torta de chocolate, refrigerante e cerveja por PCH$ 5.000 por pessoa. Uma refeição completa, farta e muito bem-vinda depois de tantas horas na estrada sem opções abertas.

Depois disso, não teve muita conversa. Tomamos um banho, respiramos aliviados e fomos dormir cedo. Na Carretera Austral, descansar bem também faz parte da sobrevivência da viagem.

Mapa da aventura de hoje: Palena - Chaiten - Puyuhuapi
Mapa da aventura de hoje: Palena - Chaiten - Puyuhuapi


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