terça-feira, 2 de junho de 2026

10 dias na Carretera Austral, com meu pai

 


Há alguns dias, contei para um amigo como foram os 10 dias inesquecíveis que passei percorrendo a Carretera Austral ao lado do meu esposo e do meu pai. Enquanto escrevia, percebi que as lembranças fluíam de forma tão natural e prazerosa que decidi compartilhar esse relato também aqui no blog. Espero que vocês gostem de acompanhar essa viagem tanto quanto eu gostei de vivê-la e de relembrá-la ao escrever estas linhas! 😊

Cerro Castillo

Em janeiro de 2010, tive a oportunidade de realizar um grande sonho do meu pai: conhecer a lendária Carretera Austral, no Chile. Talvez você esteja se perguntando como alguém pode realizar o sonho de outra pessoa. Mas, na verdade, esse sonho também era um pouco meu. Afinal, cresci ouvindo histórias sobre essa estrada fascinante.

Lá pelos anos 1980, quando meu pai era mais jovem, alguns amigos motociclistas estavam organizando uma expedição para percorrer a Carretera Austral de moto, saindo de Blumenau, cidade onde morávamos na época. Meu pai se envolveu intensamente nos preparativos: ajudou a montar o roteiro, fez cálculos de quilometragem, estudou a autonomia das motos e participou de toda a logística da viagem.

Mas, quando tudo estava pronto e a aventura prestes a começar, surgiu um obstáculo inesperado: minha mãe. Com três filhos pequenos em casa — e eu entre eles — ela considerou uma loucura ficar quase dois meses sozinha enquanto meu pai cruzava o sul do continente. E, com toda a razão de uma mãe sobrecarregada, vetou a viagem.

O sonho acabou ficando para depois. Na época, eu era pequena demais para compreender o quanto aquilo devia ter sido frustrante para ele. Só muitos anos depois fui entender o significado daquela oportunidade perdida e o quanto a Carretera Austral continuou ocupando um lugar especial em seus planos e em sua imaginação.

No meio da Carretera

No ano passado, quando comentei que eu e meu esposo estávamos planejando uma viagem para a Carretera Austral, percebi algo especial no olhar do meu pai. Seus olhos brilharam com aquela mistura de entusiasmo e inveja da boa, sabe? Naquele instante, ficou claro para mim que aquele sonho nunca havia sido esquecido. Ele continuava vivo, guardado em algum cantinho do coração.

Não pensei duas vezes. Convidei-o para viajar conosco.

Antes de responder, meu pai olhou para minha mãe, como quem ainda buscava a aprovação que décadas antes não havia recebido. Ela sorriu e fez um leve gesto afirmativo com a cabeça. Foi um momento simples, mas carregado de significado.

Imediatamente, um sorriso enorme tomou conta do rosto dele. Era uma alegria genuína, daquelas que iluminam o olhar e que não se vê todos os dias. Fazia muito tempo que eu não o via tão feliz.

Naquele instante, tive a sensação de estar presenciando a realização de um sonho que aguardava há mais de vinte anos para acontecer. E, sinceramente, acredito que aquele tenha sido um dos dias mais felizes da vida dele. ❤️

Rio Tranquillo

Você precisava ver o entusiasmo dele nos meses que antecederam a viagem. Aquele convite parece ter despertado uma energia que estava adormecida há anos. Ele começou a caminhar para melhorar o condicionamento físico, perdeu alguns quilos, passou a caminhar ainda mais e, aos poucos, foi entrando no clima da aventura.

Logo vieram os preparativos: comprou roupas e equipamentos para trekking, pesquisou sobre os lugares que visitaríamos, aumentou o ritmo das caminhadas e não perdia a oportunidade de comentar a viagem com os amigos. Era impossível não perceber sua empolgação.

E assim, aos 65 anos, com pressão alta, problemas cardíacos, uma coleção de remédios na mala e algumas limitações que a idade naturalmente traz, ele decidiu que nada o impediria de viver aquele sonho adiado por tantas décadas.

Quando finalmente embarcou conosco rumo à Carretera Austral, vi muito mais do que um pai iniciando uma viagem. Vi um homem realizando um desejo que havia carregado no coração por boa parte da vida. E isso tornou aquela aventura ainda mais especial para mim e para meu esposo. Afinal, não estávamos apenas percorrendo uma estrada famosa do Chile; estávamos acompanhando a concretização de uma história que havia começado muitos anos antes. ❤️🚗🏔️

Ventisquero Colgante

Não vou mentir: fiquei um pouco receosa em levá-lo nessa aventura. E não era apenas por ser meu pai. O que realmente me preocupava era a possibilidade de acontecer alguma coisa com a saúde dele no meio do nada, em uma das regiões mais isoladas da Patagônia.

A Carretera Austral é linda, mas também é remota. Em muitos trechos, você está a dezenas ou até centenas de quilômetros de um hospital com boa estrutura. E os pensamentos começaram a surgir: e se ele passasse mal? E se tivesse um problema cardíaco? E se sofresse um infarto? E se algum dos remédios acabasse ou fosse esquecido em algum lugar?

Durante alguns dias, essas perguntas ficaram rondando minha cabeça. Eu tentava não pensar muito nelas, mas vez ou outra elas voltavam. Ao mesmo tempo, procurava me convencer de que tudo daria certo. Afinal, ele estava se preparando havia meses, estava animado, disposto e, acima de tudo, feliz.

No fundo, eu sabia que aquela viagem significava muito mais para ele do que apenas conhecer uma estrada famosa. Era a realização de um sonho que havia esperado décadas para acontecer. E sonhos assim merecem uma chance. Então, apesar dos medos e das incertezas, seguimos em frente.

Coyhaique

Mesmo sabendo que meu pai conhecia bem a fama da Carretera Austral, eu fazia questão de lembrá-lo, de tempos em tempos, sobre o que nos aguardava. Repetia que aquela região do Chile era extremamente isolada, que as cidades eram pequenas e distantes umas das outras, que nem sempre encontraríamos lugares para comer e que, quando encontrássemos, os preços provavelmente seriam altos. Também explicava que as hospedagens costumavam ser simples, muitas vezes bastante rústicas, e que as poucas opções mais confortáveis geralmente tinham preços inacessíveis para o nosso orçamento.

Mas nada parecia abalar seu entusiasmo.

Ainda assim, no primeiro dia da viagem, antes de sairmos de Bariloche, ele comentou com toda naturalidade:

— Quando chegarmos ao hotel hoje à noite, vou mandar um e-mail para sua mãe.

Hotel? E-mail?

Naquele momento, fiquei me perguntando se ele realmente tinha entendido para onde estávamos indo. Será que eu não havia explicado direito? Em muitos lugares da Carretera, encontrar um telefone já seria uma tarefa difícil. Internet então, nem se fala.

Confesso que aquilo me deixou um pouco preocupada. Comecei a pensar que talvez ele não estivesse preparado para a realidade da viagem. Será que conseguiria lidar com a falta de conforto? Com os horários imprevisíveis das refeições? Com as longas distâncias? Com a ausência de tantas facilidades às quais estamos acostumados?

Talvez por causa dessas preocupações, durante toda a viagem procurei poupá-lo o máximo possível. Fazia questão de que ele gastasse menos dinheiro para poder aproveitar melhor as refeições e pequenos prazeres do caminho. Eu e meu esposo assumíamos despesas como aluguel do carro e combustível, sempre que possível.

Também tentávamos escolher as melhores hospedagens dentro das nossas possibilidades, mesmo sabendo que isso significava gastar um pouco mais. E, quando a cidade não oferecia nada além de acomodações simples, eu sempre fazia questão de reservar para ele a melhor cama do quarto.

Hoje percebo que, naquele momento, eu estava tão preocupada em cuidar dele que ainda não havia entendido uma coisa: talvez ele fosse muito mais forte e preparado para aquela aventura do que eu imaginava.

Trilha para Ventisquero Yelcho

Também não vou dizer que foi fácil conviver com meu pai, vinte e quatro horas por dia, durante dez dias seguidos.

Com o passar dos anos, eu havia me desacostumado com muitas das suas manias, seus horários, suas opiniões fortes, suas críticas, suas reclamações e até mesmo com seu jeito bem particular de enxergar as coisas. E, para ser justa, a recíproca provavelmente era verdadeira. Eu também não sou exatamente a pessoa mais fácil do mundo para conviver.

Meu esposo, que raramente reclama de alguma coisa, também teve seus momentos de impaciência.

De vez em quando surgia uma resposta atravessada daqui, uma irritação dali, um comentário que não era recebido da melhor forma. Afinal, estávamos juntos o tempo todo: dividindo carro, refeições, quartos, decisões e quilômetros intermináveis de estrada.

Mas o mais curioso era como esses pequenos atritos rapidamente perdiam a importância.

Bastava a estrada fazer uma curva e surgir diante de nós um lago de um azul inacreditável. Ou uma cachoeira despencando montanha abaixo. Ou ainda um gigantesco ventisqueiro descendo pelas encostas dos Andes.

Nesses momentos, o silêncio tomava conta do carro. As discussões desapareciam. As diferenças deixavam de importar.

E todos nós nos lembrávamos do verdadeiro motivo de estarmos ali.

Não era sobre conforto, horários ou opiniões. Era sobre viver aquela aventura juntos. Era sobre compartilhar uma paisagem que parecia grande demais para caber em fotografias. Era sobre realizar um sonho que havia esperado décadas para acontecer.

E, diante da imensidão da Patagônia, qualquer desavença se tornava pequena demais para merecer atenção.

Cidade de Chaitén

Quando voltamos para casa, confesso que imaginei que meu pai jamais iria querer viajar comigo novamente.

Afinal, nossos estilos de viagem são bem diferentes. Eu nunca fui uma pessoa muito ligada a conforto. Como o que estiver disponível e quando for possível, durmo onde houver vaga, seja em um albergue simples, em um quarto com banheiro compartilhado ou até mesmo em uma barraca. Para mim, o importante sempre foi a experiência e não as comodidades.

Por isso, durante toda a viagem, fiquei esperando alguma reclamação mais séria da parte dele. Mas ela nunca veio. Pelo menos não em voz alta, nem de uma forma que eu pudesse perceber.

E olha que motivos não faltaram. Foram dez dias de estradas de rípio, longas horas dentro do carro, hospedagens simples, refeições improvisadas e toda a imprevisibilidade que faz parte de uma aventura pela Carretera Austral.

Talvez justamente por isso eu tenha ficado tão surpresa quando, já de volta à rotina, comentei que provavelmente em 2011 faríamos uma nova viagem pela Patagônia, passando por Torres del Paine, El Calafate e Ushuaia.

Antes mesmo que eu terminasse de explicar o roteiro, ele já demonstrava interesse.

Na verdade, foi um dos primeiros a querer garantir lugar na próxima aventura.

Naquele momento eu percebi que a Carretera Austral havia feito com ele exatamente o que costuma fazer com todos que passam por lá: conquistado seu coração de forma definitiva.

E foi aí que entendi que, apesar de todos os perrengues, das diferenças de personalidade e dos desafios do caminho, aquela tinha sido uma das melhores viagens da vida dele.

E, sem dúvida, uma das mais especiais da minha também.

Hehehe...

No meio da Carretera Austral

Hoje, mais do que recordar as paisagens incríveis da Carretera Austral, o que mais guardo comigo é a experiência de ter vivido tudo aquilo ao lado do meu pai.

Espero, de coração, que a saúde continue lhe dando forças por muitos e muitos anos, para que ele possa nos acompanhar em muitas outras aventuras. Afinal, moramos longe um do outro — ele em Curitiba e eu seguindo minha vida em outra cidade — e, por isso, acabamos compartilhando muito menos tempo do que eu gostaria.

Talvez seja justamente por isso que essas viagens tenham se tornado tão especiais.

Elas nos deram algo que a correria do dia a dia raramente permite: tempo. Tempo para conversar, para discordar, para rir, para descobrir novas histórias e para criar lembranças que ficarão para sempre guardadas na memória.

De certa forma, a Carretera Austral realizou muito mais do que um sonho antigo. Ela nos aproximou de uma maneira que eu jamais imaginei ser possível.

E, sinceramente, essa acabou sendo a maior viagem de todas.

Por isso, espero que ainda existam muitas estradas pela frente, muitos mapas sobre a mesa, muitos quilômetros para percorrer e muitas aventuras para compartilhar.

Porque estou adorando descobrir um novo jeito de conviver com meu pai.

Estou adorando, simplesmente, "andar por aí" com ele.


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