quarta-feira, 3 de junho de 2026

Laguna de Los Tres - El Chalten - Argentina

 24 dezembro de 2010


Acordamos por volta das 7h30 e, ainda na cabana, aproveitamos para falar com minha mãe pela internet e desejar um Feliz Natal, mesmo estando longe de casa.

Em seguida, organizamos nossas coisas com calma e seguimos para o transfer, que partiu às 8h30 em direção à Hostería El Pilar. O trajeto foi rápido e, por volta das 9h, já estávamos no ponto de início da trilha.

Com tudo pronto, demos os primeiros passos rumo a mais uma caminhada na Patagônia, agora em direção a uma das trilhas mais esperadas da viagem.




Durante a trilha, passamos pelo Glaciar Piedras Blancas, uma visão impressionante por si só. De tempos em tempos, grandes blocos de gelo se desprendiam e caíam, provocando aquele “trovão” seco e profundo que ecoa pela montanha — uma sensação que realmente arrepia e faz a gente parar para observar em silêncio.

Seguimos a caminhada sem cronometrar o tempo, apenas no ritmo da trilha e das paradas para contemplar a paisagem. Por volta das 12h, chegamos ao Campamento Poincenot, onde fizemos uma pausa para comer alguns dos lanches que havíamos levado.

Depois do descanso rápido, nos preparamos para o desafio final do dia: a subida rumo à Laguna de Los Tres.



A subida começou a ficar bem mais difícil: muito vento, chuva e várias pessoas descendo dizendo que haviam desistido por causa do mau tempo. Mesmo assim, seguimos.

O trecho final da trilha é realmente pesado, principalmente nos últimos metros. Em alguns momentos, cheguei a pensar que não conseguiria completar. A cada passo, a mente já antecipava a descida — que é sempre a parte que mais me preocupa, especialmente por causa do meu joelho esquerdo, que às vezes parece “falhar”. O bastão de caminhada, nesse momento, faz toda a diferença.

E então, perto do final, algo inesperado: começou a nevar. Foi minha primeira “nevasca” na véspera de Natal — um daqueles momentos que transformam o esforço em memória inesquecível. Mesmo cansativo, havia algo mágico em caminhar sob a neve naquele cenário.

E quando pensamos que finalmente tínhamos chegado, ainda havia mais um trecho pela frente…


Não preciso nem dizer que, lá de cima, não vimos quase nada.

A Laguna de Los Tres aparecia com suas águas de um azul intenso, mas o Fitz Roy permanecia completamente encoberto pelas nuvens, sem dar nenhum sinal de se revelar. A paisagem, que em dias claros é considerada uma das mais espetaculares da Patagônia, naquele momento estava tomada pelo branco do nevoeiro e da neve.

Ainda assim, de alguma forma, tudo valeu a pena. A chegada ali, depois de uma subida tão intensa, sob vento, chuva e neve na véspera de Natal, teve um significado especial. Mais do que a vista, ficou a experiência — e a sensação de ter vivido algo único, mesmo sem o cartão-postal completo.


Na volta, como já esperávamos, a descida foi o trecho mais difícil — especialmente para mim e meu pai.

No meu caso, o joelho esquerdo acaba transmitindo certa insegurança na descida, então precisei ir com muito cuidado, quase passo a passo. Em cada degrau mais alto, eu me apoiava principalmente na perna direita e no bastão de caminhada, o que naturalmente diminuía nosso ritmo em relação ao restante do grupo.

Foi uma parte cansativa e que exigiu bastante atenção, mas também mostrou como o bastão e a estratégia de ir com calma fazem toda a diferença para chegar bem até o final da trilha.


Chegamos novamente ao Campamento Poincenot já bem cansados, fizemos uma nova pausa para comer alguma coisa e recuperar um pouco as energias antes da última etapa do dia.

Por volta das 17h, iniciamos o retorno a El Chaltén pela trilha da Laguna Capri. Esse trecho tem cerca de 2h30 de caminhada, e mesmo já bastante exaustos, conseguimos completar dentro do tempo indicado nos folders.

A sensação era de cansaço extremo, mas também de satisfação por ter conseguido concluir mais uma trilha intensa na Patagônia, mesmo depois de um dia tão exigente.


Chegamos de volta à cidade por volta das 19h30, completamente exaustos, mas com aquela sensação boa de missão cumprida depois de um dia intenso de trilha.

Para a nossa ceia de Natal, optamos por algo simples e bem prático: pegamos pizzas, tortas e sopas em um dos restaurantes da cidade. Nada muito elaborado, mas perfeito para o momento — quente, reconfortante e exatamente o que precisávamos depois de tantas horas de caminhada.

Assim, encerramos nosso Natal na Patagônia: cansados, felizes e com a certeza de que dificilmente esqueceríamos esse dia.


Perrengues do dia

Nem tudo foi perfeito — e a trilha mostrou isso da forma mais intensa possível.

Nossas botas da Bull Terrier e a Snake do meu pai não passaram no teste de impermeabilidade, e acabamos com os pés completamente encharcados e congelados. O frio também castigou bastante o rosto e as mãos; minhas luvas ficaram molhadas e o vento deixou a sensação ainda pior, a ponto de até o rosto ficar “queimado” pelo clima extremo.

Mesmo com capa de chuva, o cenário não ajudou muito. As nossas capas da Quechua resistiram bem ao vento e à chuva, mas a do meu pai, da Nautika, acabou rasgando completamente durante o percurso por causa da força do vento, o que agravou ainda mais o desconforto.

Dica importante: não suba a trilha da Laguna de Los Tres em dias de chuva e vento forte. A experiência pode acabar sendo frustrante, já que todo o esforço da subida muitas vezes não é recompensado pela vista — o tempo encoberto esconde completamente o paredão do Fitz Roy, que é justamente o grande destaque do lugar. Sabemos que é uma decisão difícil, especialmente depois de todo o preparo para chegar até lá, mas o clima faz toda a diferença na experiência.

Ainda assim, fica a lembrança de um Natal inesquecível na Patagônia.

FELIZ NATAL!

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