A aventura pelo Salar de Uyuni marcou um momento muito especial para mim e para o Elio: foi a primeira vez que saímos do Brasil juntos.
Confesso que, antes da viagem, sentimos uma mistura de empolgação, ansiedade e muitos receios. Viajar para outro país pela primeira vez sempre traz algumas inseguranças. Será que daria tudo certo? Será que conseguiríamos nos comunicar? Como seriam os deslocamentos, os hotéis, os passeios? Eram muitas dúvidas para dois viajantes estreantes em aventuras internacionais.
Mas, como em toda boa viagem, um pouco de planejamento fez toda a diferença.
Pesquisamos bastante, montamos o roteiro com cuidado, organizamos documentos, reservas e passeios, e aos poucos fomos ganhando confiança de que tudo daria certo.
E deu.
Hoje, olhando para trás, percebo que aqueles medos eram pequenos diante da grandiosidade da experiência que viveríamos nos dias seguintes.
Nossa jornada rumo ao incrível Salar de Uyuni começou por Santiago, no Chile.
Foi ali que demos os primeiros passos fora do Brasil, cheios de expectativas e curiosidade sobre tudo o que encontraríamos pelo caminho. Mal sabíamos que aquela seria apenas a porta de entrada para uma das viagens mais impressionantes das nossas vidas.
Acordamos bem cedo, cheios de expectativa para aquele que seria o ponto alto da viagem. Às 8 horas da manhã tínhamos encontro marcado em frente à agência Colque Tours, de onde partiríamos para a tão sonhada expedição de 4 dias e 3 noites pelo Salar de Uyuni.
Na época, o passeio custou US$ 130,00 por pessoa, um valor que, olhando hoje, parece até inacreditável diante de tudo o que viveríamos nos dias seguintes.
Enquanto aguardávamos nossa condução, conhecemos uma personagem que acabaria tornando a viagem ainda mais interessante: Ivone, uma alemã muito simpática e divertida que estava viajando sozinha pela América do Sul. Em poucos minutos já estávamos conversando como velhos conhecidos, trocando histórias de viagem e compartilhando a ansiedade pelo que nos aguardava.
A manhã havia amanhecido típica do altiplano: fria, nublada e com aquele céu cinzento que não deixava imaginar as paisagens espetaculares que ainda veríamos.
Embarcamos em um micro-ônibus e seguimos rumo à fronteira com a Bolívia.
Antes, porém, foi necessário passar pela aduana chilena na saída de San Pedro de Atacama. O processo foi bastante rigoroso e demorado, como já esperávamos. Os chilenos levam os controles de fronteira muito a sério, especialmente quando o assunto é a entrada e saída de alimentos e produtos agrícolas.
Enquanto enfrentávamos a burocracia, o clima começou a mudar.
As nuvens foram se dissipando aos poucos e o céu começou a revelar aquele azul intenso tão característico do deserto do Atacama.
A estrada até a aduana boliviana é longa, mas em nenhum momento se torna monótona. Durante praticamente todo o percurso, o majestoso Vulcão Licancabur domina a paisagem, acompanhando os viajantes como um gigantesco guardião da fronteira entre os dois países.
À medida que avançávamos, o ônibus ganhava altitude rapidamente. Em poucos quilômetros subimos mais de mil metros por uma estrada que alternava trechos asfaltados e estradas de terra.
O ar ficava cada vez mais seco, a vegetação desaparecia e as paisagens tornavam-se progressivamente mais selvagens e impressionantes.
Foi nesse momento que tive a certeza de que nossa aventura havia realmente começado.
Estávamos deixando para trás o conforto de San Pedro de Atacama e entrando em uma das regiões mais remotas, inóspitas e fascinantes da América do Sul.
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| Vulcão Lincancabur visto da estrada para aduana boliviana |
Apesar de estarmos em pleno verão, a paisagem na fronteira estava bem diferente do que imaginávamos. As chuvas dos dias anteriores haviam deixado uma fina camada de neve em alguns pontos próximos à aduana boliviana e até o imponente Vulcão Licancabur aparecia com o topo esbranquiçado.
Foi uma surpresa e tanto.
Até então, quando pensávamos em verão no deserto, imaginávamos sol forte, calor e paisagens áridas. Ver neve naquele cenário tornava tudo ainda mais especial e reforçava a sensação de estarmos entrando em um ambiente completamente diferente de tudo o que conhecíamos.
Na aduana boliviana pagamos a taxa de entrada de 21 bolivianos por pessoa e, para nossa surpresa, o processo foi extremamente simples. Enquanto na fronteira chilena os procedimentos haviam sido rigorosos e demorados, do lado boliviano praticamente não houve fiscalização das bagagens.
Ali perto já estavam estacionados os famosos jipes que fazem os roteiros pelo Salar de Uyuni e pelas lagunas do altiplano. Foi ali que conhecemos nosso guia e descobrimos que haveria uma pequena mudança nos planos.
Ele precisava retornar a Uyuni ainda naquele mesmo dia para deixar três turistas brasileiros que haviam concluído a travessia vindo de San Pedro de Atacama.
Diante dessa situação, surgiu uma proposta inesperada: fazer o roteiro ao contrário.
Em vez de percorrermos primeiro as lagunas, desertos e o altiplano para chegar ao Salar apenas no final da viagem, seguiríamos diretamente para Uyuni no primeiro dia e depois faríamos o trajeto de volta, cruzando todo o altiplano boliviano em direção a San Pedro de Atacama.
Por alguns instantes ficamos em dúvida.
Afinal, quando passamos meses planejando uma viagem, qualquer alteração de última hora gera um certo receio. Mas, depois de pensar um pouco, percebemos que a mudança não alteraria os lugares que visitaríamos, apenas a ordem do roteiro.
Aceitamos a proposta.
Mal sabíamos que essa pequena mudança acabaria trazendo algumas vantagens e nos proporcionaria experiências completamente diferentes das vividas pela maioria dos turistas que fazem o percurso tradicional.
Com as mochilas acomodadas no jipe e o Licancabur ficando para trás no horizonte, iniciamos oficialmente nossa aventura pela Bolívia.
E a partir dali a sensação era de estar entrando em outro mundo.
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| Na aduana boliviana |
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| Laguna Blanca, primeira parada para o café da manhã |
Nossa primeira parada já foi daquelas capazes de nos fazer esquecer completamente o frio, o cansaço e as longas horas de viagem.
Chegamos à Laguna Blanca, onde seria servido o café da manhã incluído no pacote da expedição.
O café era bastante simples, sem grandes luxos, mas naquele cenário isso era o que menos importava. Aliás, uma das coisas que aprendemos rapidamente no altiplano boliviano é que as paisagens compensam qualquer simplicidade.
Enquanto tomávamos café, observávamos pela janela — ou melhor, da nossa própria mesa — um panorama espetacular de montanhas cobertas de neve refletidas nas águas claras da laguna.
Era difícil acreditar que estávamos realmente ali.
O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas pelo vento que soprava pelo altiplano e pelo som dos poucos viajantes que compartilhavam aquele momento conosco.
A altitude, o frio e a imensidão da paisagem criavam uma atmosfera muito diferente de tudo o que já havíamos experimentado em outras viagens.
E aquela era apenas a primeira parada.
Enquanto saboreávamos o café da manhã, olhávamos para o horizonte e tentávamos absorver cada detalhe da cena. As montanhas nevadas, o céu azul intenso, o ar puro e a sensação de isolamento faziam daquele um daqueles momentos raros em que a realidade parece mais bonita do que qualquer fotografia.
Foi ali que começamos a entender por que tantas pessoas consideram a travessia do Salar de Uyuni uma das experiências mais impressionantes da América do Sul.
E o melhor de tudo: a aventura estava apenas começando.
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| Vila Alota, parada para almoço |
Depois do café da manhã na Laguna Blanca, seguimos viagem rumo a Uyuni.
Foram aproximadamente oito horas de estrada a bordo de um jipe 4x4 robusto, daqueles feitos para enfrentar sem dificuldade as condições extremas do altiplano boliviano. O percurso foi longo e, em alguns momentos, bastante cansativo. Afinal, além das distâncias enormes, já estávamos viajando em altitudes elevadas, o que por si só exige mais do corpo.
Mas a verdade é que o cansaço passava quase despercebido.
A cada curva surgiam novas paisagens capazes de nos deixar de boca aberta. Montanhas coloridas, extensas planícies, lagunas, formações rochosas e uma sensação constante de estar atravessando um território praticamente intocado.
Era impossível dormir ou desviar os olhos da janela por muito tempo.
No meio do caminho paramos para almoçar na pequena Vila Alota, um dos raros pontos habitados daquela imensidão. Mais uma refeição simples, mas saborosa e suficiente para recarregar as energias antes de continuar a jornada.
No final da tarde, por volta das 18 horas, finalmente chegamos a Uyuni.
Depois de tantas horas percorrendo paisagens desertas, foi curioso reencontrar uma cidade com movimento, comércio e pessoas circulando pelas ruas. Uyuni é simples, mas tem um charme próprio. A cidade vive em função do turismo e serve como porta de entrada para uma das regiões mais espetaculares da Bolívia.
Ficamos hospedados em um hotel localizado bem em frente à agência Colque Tours, no centro da cidade, o que facilitou bastante nossa logística para os dias seguintes.
À noite, o jantar foi servido em um restaurante próximo ao hotel, também incluído no pacote da expedição. Aproveitamos para relaxar um pouco, caminhar pelas ruas centrais e observar o movimento dos viajantes que chegavam e partiam em diferentes direções.
Uma coisa que nos chamou atenção foram as lojas de artesanato. Havia uma grande variedade de produtos típicos da Bolívia, com preços muito mais acessíveis do que os que havíamos encontrado no Chile.
Encerramos o dia cansados, mas muito felizes.
Afinal, aquele tinha sido apenas o primeiro capítulo da aventura. E, no dia seguinte, finalmente conheceríamos o lugar que havia motivado toda aquela viagem: o lendário Salar de Uyuni.
20 de janeiro de 2009
Acordamos cedo no dia seguinte e, pela primeira vez na viagem, senti os efeitos da altitude.
Levantei com uma leve dor de cabeça e um certo enjoo, nada muito forte, mas suficiente para me deixar um pouco preocupada. Afinal, ainda tínhamos vários dias pela frente em regiões de grande altitude e eu não queria que isso atrapalhasse a viagem.
Durante o café da manhã comentei o que estava sentindo com o pessoal do hotel e imediatamente me ofereceram um tradicional chá de coca, sem açúcar.
Aceitei a sugestão.
Não sei se foi o chá, o descanso da noite anterior ou uma combinação dos dois, mas a verdade é que pouco tempo depois comecei a me sentir melhor. A dor de cabeça diminuiu e o enjoo praticamente desapareceu, permitindo que eu aproveitasse o restante da manhã com mais disposição.
Como nosso jipe para o Salar de Uyuni só partiria às 11 horas, aproveitamos o tempo livre para caminhar um pouco pelo centro da cidade e fazer algumas compras.
As ruas já estavam cheias de mochileiros e viajantes de todas as partes do mundo, cada um se preparando para sua própria aventura pelo altiplano boliviano.
Quando meu estômago finalmente deu sinais de que estava recuperado, resolvi fazer um pequeno teste de coragem gastronômica.
Comprei uma salteña de carne vendida em uma barraca de rua e encarei o desafio.
Confesso que, enquanto dava as primeiras mordidas, uma parte de mim torcia para que aquela decisão não resultasse em problemas digestivos algumas horas depois, no meio do deserto boliviano.
Mas o risco valeu a pena.
A salteña estava deliciosa.
Para quem nunca experimentou, ela lembra uma empanada assada, mas com uma massa levemente adocicada e um recheio muito suculento. É preciso até certo cuidado ao comer para não deixar o caldo escorrer por todos os lados.
Foi uma daquelas experiências simples que acabam ficando guardadas na memória da viagem.
E o melhor de tudo: sobrevivi à salteña sem nenhum problema.
Com a altitude controlada, o estômago feliz e a mochila pronta, finalmente chegou a hora de partir para conhecer o lugar que nos havia levado até ali.
O Salar de Uyuni nos aguardava.
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| Cidade de Uyuni |
Pontualmente às 11 horas voltamos para a agência da Colque Tours, onde finalmente conheceríamos os companheiros que dividiram conosco os próximos dias de aventura pelo altiplano boliviano.
Além de nós dois, o grupo era formado por uma simpática holandesa e um casal de São Paulo. Em poucos minutos já estávamos trocando as primeiras impressões sobre a viagem, comentando roteiros e compartilhando aquela ansiedade típica de quem está prestes a conhecer um dos lugares mais famosos da América do Sul.
Logo acomodamos as mochilas no bagageiro e tomamos nossos lugares no jipe.
Éramos seis passageiros mais o motorista, que também exercia a função de guia, cozinheiro, mecânico e, muitas vezes, até fotógrafo oficial do grupo. Quem já fez esse tipo de expedição na Bolívia sabe que os guias acabam desempenhando praticamente todas as funções imagináveis durante a viagem.
Com tudo pronto, partimos rumo ao Salar de Uyuni.
A primeira parada foi em um dos pontos mais tradicionais do roteiro: o famoso Cemitério dos Trens.
O lugar impressiona logo à primeira vista.
Em meio à paisagem árida surgem dezenas de locomotivas e vagões abandonados, enferrujados pela ação do tempo e do clima rigoroso do altiplano. As antigas estruturas metálicas parecem ter sido esquecidas ali há décadas, criando um cenário que mistura história, abandono e um certo ar de mistério.
É impossível não caminhar entre os trens imaginando quantas histórias aquelas locomotivas carregaram quando a ferrovia era uma das principais formas de transporte da região.
O contraste entre o ferro enferrujado, o céu azul intenso e a imensidão da paisagem rende fotografias incríveis.
Ao lado do cemitério também existe uma área com diversas barracas de artesanato, onde encontramos lembranças típicas da Bolívia, peças feitas com lã de alpaca, artesanato andino e diversos souvenirs para turistas.
Foi uma parada rápida, mas muito interessante.
E aquilo era apenas uma pequena introdução para o espetáculo que ainda nos aguardava nas horas seguintes, quando finalmente colocaríamos os pés sobre a imensidão branca do Salar de Uyuni.
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| Cemitério de trens |
Pouco depois de deixar o Cemitério dos Trens para trás, finalmente chegamos ao momento mais aguardado da viagem.
Entramos no Salar de Uyuni.
E a primeira reação foi simples:
Uau!
Por mais fotos, vídeos e relatos que eu tivesse visto antes da viagem, nada me preparou para a sensação de estar diante daquela imensidão branca.
O salar parece não ter fim.
Em todas as direções, o horizonte se perde em um tapete de sal que se mistura ao céu, criando uma paisagem quase surreal. É um daqueles lugares que fazem você se sentir minúsculo diante da grandiosidade da natureza.
A claridade é impressionante.
O branco do sal reflete a luz solar com tanta intensidade que chega a incomodar os olhos. Não estou exagerando: em alguns momentos era difícil manter os olhos totalmente abertos sem proteção.
Por isso fica a dica: leve óculos de sol e não se esqueça de usá-los. Eles não são apenas um acessório para fotos bonitas; são praticamente indispensáveis para aproveitar o passeio com conforto.
À medida que avançávamos pelo salar, a sensação era de estar dirigindo sobre uma gigantesca camada de neve, embora tudo ao redor fosse formado por sal.
A paisagem era tão uniforme e perfeita que perdíamos completamente a noção de distância.
Nossa primeira parada dentro do salar foi no famoso Hotel de Sal.
E ele faz jus ao nome.
Praticamente tudo ali é construído com blocos de sal: paredes, mesas, bancos e até parte da decoração. É curioso observar como um material aparentemente tão simples pode ser utilizado para criar uma estrutura tão única.
O local acabou se tornando um dos símbolos do Salar de Uyuni e uma parada obrigatória para quem visita a região.
Passamos algum tempo explorando o hotel, tirando fotos e tentando absorver a dimensão daquele lugar tão diferente de tudo o que já havíamos visto.
Mas a verdade é que, naquele momento, o próprio salar roubava toda a atenção.
A cada minuto eu me convencia ainda mais de que estávamos conhecendo um dos lugares mais extraordinários do planeta.
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| Hotel de sal |
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| Salar de Uyuni, única área alagada |
Nossa próxima parada foi na famosa Isla del Pescado, uma das atrações mais conhecidas do Salar de Uyuni.
A sensação de se aproximar da ilha é bastante curiosa. Depois de percorrer quilômetros e quilômetros de uma planície completamente branca e plana, surge repentinamente uma formação rochosa coberta por enormes cactos, como se fosse uma ilha perdida em um oceano de sal.
E, de certa forma, é exatamente isso.
Milhares de anos atrás, quando toda aquela região era coberta por um imenso lago pré-histórico, a Isla del Pescado realmente era uma ilha. Hoje ela permanece como uma testemunha geológica daquele passado distante, cercada pela imensidão branca do salar.
Foi ali que paramos para almoçar.
Enquanto apreciávamos a paisagem, nosso motorista-guia preparou uma refeição simples, mas muito saborosa. Aliás, uma coisa que me surpreendeu durante todo o passeio foi a dedicação dos guias, que além de dirigir por horas em condições difíceis ainda cuidavam das refeições e de toda a logística do grupo.
Após o almoço, quem quisesse poderia subir até o topo da ilha para apreciar uma das vistas mais famosas do Salar de Uyuni. Na época era cobrada uma taxa de entrada de 15 bolivianos por pessoa.
A vista, segundo os demais integrantes do grupo, era espetacular.
Mas naquele momento eu precisava ouvir meu corpo.
A altitude voltava a cobrar seu preço e a dor de cabeça, que havia melhorado pela manhã, começava novamente a dar sinais de vida. Nada grave, mas suficiente para me fazer desistir da caminhada até o alto da ilha.
Enquanto o restante do grupo explorava os cactos gigantes e os mirantes, resolvi ficar próxima ao jipe, descansando e apreciando a paisagem com mais calma.
Às vezes, durante uma viagem, aprendemos que não é preciso participar de tudo para aproveitar um lugar.
Mesmo sentada ali, observando a imensidão branca ao meu redor e o silêncio quase absoluto do salar, eu tinha a sensação de estar vivendo um momento único.
E, sinceramente, não me arrependi da decisão.
Afinal, ainda havia muito chão pela frente e eu precisava guardar energia para continuar explorando uma das regiões mais fascinantes da Bolívia.
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| Isla del Pescado, Salar de Uyuni |
Uma curiosidade interessante é que o Salar de Uyuni não estava alagado durante a nossa visita, exatamente o contrário do que eu esperava encontrar.
Antes da viagem, eu havia visto inúmeras fotografias daquele efeito espetacular em que o salar se transforma em um gigantesco espelho, refletindo perfeitamente o céu. Na minha cabeça, janeiro significava água e reflexos por todos os lados.
Mas a natureza resolveu nos surpreender.
Segundo os guias, aquele ano estava sendo atípico por causa de um fenômeno climático que havia alterado o regime de chuvas da região. Apesar de estarmos em pleno verão boliviano, época normalmente associada às cheias, o salar permanecia praticamente seco.
A previsão era de que as águas chegassem apenas em fevereiro.
Por um lado, fiquei um pouco decepcionada por não ver o famoso "efeito espelho". Por outro, tivemos a oportunidade de conhecer o salar em sua forma mais tradicional, percorrendo longas distâncias sobre aquela imensidão branca sem qualquer dificuldade.
Aliás, vale uma dica importante para quem pretende visitar a região: informe-se sobre as condições do salar antes de viajar.
Quando o nível da água sobe demais, alguns passeios podem ser alterados ou até cancelados, já que determinadas áreas ficam inacessíveis aos veículos.
Depois de muitas paradas para fotos — e acreditem, é impossível resistir à tentação de parar a cada poucos quilômetros — seguimos para o hotel onde passaríamos a noite.
E foi aí que tivemos mais uma experiência típica das expedições pelo altiplano boliviano.
Nada de hotéis luxuosos ou grandes confortos.
Nosso quarto era coletivo, compartilhado pelos seis integrantes do jipe. As acomodações eram simples, mas limpas e confortáveis o suficiente para uma boa noite de descanso depois de um dia inteiro percorrendo o salar.
Cada quarto possuía apenas um banheiro, o que exigia um pouco de organização entre todos os hóspedes.
Mas a principal preocupação da noite era outra.
A água quente para banho estaria disponível por apenas uma hora.
Sim, apenas uma hora.
Diante da notícia, ninguém quis perder tempo. Rapidamente formamos uma espécie de operação militar: um entrava, tomava banho correndo, saía e passava a vez para o próximo.
E, considerando que estávamos em uma região fria, de altitude elevada e após um dia inteiro cobertos de poeira e sal, aquele banho quente parecia um verdadeiro luxo.
Quando todos terminaram sua corrida contra o relógio, restava apenas jantar, conversar um pouco sobre as aventuras do dia e descansar.
No dia seguinte, o altiplano boliviano ainda guardava algumas das paisagens mais impressionantes de toda a viagem.
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| Área de lama no Salar de Uyuni |
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| Hotel da primeira noite no Salar de Uyuni |
O jantar foi servido no próprio hotel.
A comida estava saborosa e muito bem-vinda depois de um dia inteiro percorrendo o Salar de Uyuni. O único problema é que as porções eram um pouco pequenas para o tamanho da nossa fome. Depois de tantas horas na estrada, caminhadas, altitude e frio, confesso que terminei a refeição com a sensação de que poderia facilmente repetir o prato.
Mas isso parece fazer parte da experiência.
Nas expedições pelo altiplano boliviano, o conforto não é exatamente a prioridade. O foco está nas paisagens e na aventura, e todos acabam entrando no espírito da viagem.
Quando a noite caiu, a temperatura despencou rapidamente.
O frio naquela região é algo que realmente impressiona. Durante o dia, com o sol forte e a altitude, muitas vezes nem percebemos o quanto estamos em um ambiente extremo. Mas basta o sol desaparecer para o termômetro lembrar quem manda por ali.
Felizmente havíamos levado nossos sacos de dormir, uma decisão que se mostrou extremamente acertada.
Na hora de dormir, entrei no saco de dormir e ainda me cobri com as cobertas disponibilizadas pelo hotel. Pode parecer exagero, mas naquela altitude toda proteção contra o frio é bem-vinda.
E funcionou perfeitamente.
Passei a noite toda aquecida e dormi muito bem.
Aliás, para quem pretende fazer esse roteiro, deixo uma dica valiosa: mesmo que a agência informe que os alojamentos possuem cobertores, levar um bom saco de dormir traz muito mais conforto e tranquilidade, principalmente para quem sente frio com facilidade.
Depois de um dia tão intenso e repleto de paisagens inesquecíveis, bastou deitar para o sono chegar rapidamente.
E ainda bem.
Porque o dia seguinte prometia algumas das paisagens mais espetaculares de toda a travessia pelo altiplano boliviano.
21 de janeiro de 2009
O despertador tocou cedo. Às 6h30 já estávamos de pé, enfrentando o frio típico das manhãs no altiplano boliviano.
Depois do café da manhã, arrumamos nossas mochilas, embarcamos novamente no jipe e seguimos viagem rumo ao Deserto de Siloli, uma das regiões mais impressionantes de toda a travessia.
A cada quilômetro a paisagem se tornava mais surpreendente.
O Deserto de Siloli parece um cenário de outro planeta. A imensidão árida, os tons avermelhados e ocres do solo, o céu intensamente azul e as formações rochosas esculpidas pelo vento durante milhares de anos criam um visual que desafia a imaginação.
Em vários momentos pedíamos ao motorista para diminuir a velocidade apenas para contemplar melhor a paisagem ou tirar mais algumas fotografias. Era impossível não se impressionar.
As formações rochosas espalhadas pelo deserto são verdadeiras esculturas naturais. O vento constante e as mudanças de temperatura moldaram as pedras ao longo dos séculos, criando figuras curiosas e cenários que parecem cuidadosamente planejados pela natureza.
Enquanto cruzávamos aquela imensidão, também tivemos a oportunidade de avistar ao longe o Vulcão Putana.
Ver um vulcão ativo no horizonte é uma experiência difícil de descrever. Mesmo a grande distância, era possível observar sua imponência dominando a paisagem andina. A simples ideia de que aquela montanha continua geologicamente ativa tornava a cena ainda mais fascinante.
Naquele momento, olhando pela janela do jipe, tive novamente a sensação que se repetiria várias vezes durante essa viagem: a de estar atravessando um dos lugares mais remotos e extraordinários da América do Sul.
E o mais impressionante é que, a cada parada, parecia impossível que a paisagem seguinte conseguisse superar a anterior.
Mas o altiplano boliviano sempre encontrava uma forma de nos surpreender.
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| Deserto de Siloli |
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| Vulcão Putana |
Depois de atravessarmos o Deserto de Siloli, seguimos por uma sequência de paisagens que, até hoje, considero algumas das mais bonitas de toda a viagem.
Nossa rota passou pelas lagunas Ramaditas, Hedionda e Cañapa, cada uma com características próprias, mas todas igualmente impressionantes.
O mais curioso é que, quando você acha que já viu a laguna mais bonita do dia, surge outra logo adiante para mudar completamente sua opinião.
As águas apresentavam diferentes tonalidades de azul e verde, refletindo o céu andino e as montanhas ao redor. O contraste com o solo árido do altiplano criava cenários de uma beleza difícil de descrever.
Mas os verdadeiros protagonistas dessas lagunas eram os flamingos.
Centenas deles estavam espalhados pelas margens e pelas áreas mais rasas, formando manchas cor-de-rosa em meio à paisagem. Alguns caminhavam lentamente pela água em busca de alimento, enquanto outros permaneciam imóveis, apoiados em apenas uma perna, como se estivessem posando para os fotógrafos.
Era impossível não parar para observá-los.
A presença dos flamingos tornava o cenário ainda mais especial, trazendo vida e movimento àquela imensidão silenciosa do altiplano.
Na hora do almoço paramos às margens da Laguna Cañapa.
E o local escolhido não poderia ser mais apropriado.
As mesas e cadeiras eram construídas com blocos de pedra, integrando-se perfeitamente à paisagem natural. Sentamos diante da laguna, cercados por montanhas, flamingos e um silêncio quase absoluto.
Enquanto admirávamos a vista, nosso guia preparou mais uma refeição.
E dessa vez ninguém ficou com fome.
O almoço estava muito bem servido, saboroso e farto, exatamente o que precisávamos para recuperar as energias depois de uma manhã inteira percorrendo desertos, lagunas e estradas de terra.
Foi um daqueles momentos em que a experiência vai muito além da comida.
Não era apenas o almoço.
Era a oportunidade de sentar em meio a uma das paisagens mais extraordinárias da Bolívia, observando flamingos selvagens enquanto saboreávamos uma refeição simples, mas deliciosa.
Mais uma lembrança que ficaria para sempre guardada na memória daquela aventura pelo Salar de Uyuni.
Após o almoço seguimos para uma das formações geológicas mais famosas do altiplano boliviano: a Árbol de Piedra.
E o nome não poderia ser mais apropriado.
Vista de longe, a enorme rocha realmente lembra uma árvore solitária surgindo no meio do deserto. Seu formato peculiar foi esculpido ao longo de milhares de anos pela ação constante dos ventos, que desgastaram a base da pedra mais rapidamente do que sua parte superior.
O resultado é uma verdadeira obra de arte da natureza.
Como acontece em muitos pontos da Bolívia, as fotografias são bonitas, mas não conseguem transmitir a dimensão real do lugar. Ao chegar perto da formação, ficamos impressionados com seu tamanho e com a força dos elementos naturais capazes de criar algo tão singular.
Mas a Árbol de Piedra não é a única atração da região.
Ao redor dela existem diversas outras formações rochosas curiosas, moldadas pelo vento e pelo tempo em formatos que estimulam a imaginação. Algumas lembram animais, outras parecem esculturas abstratas espalhadas pela paisagem árida do deserto.
Foi mais uma daquelas paradas em que passamos muito mais tempo fotografando do que imaginávamos.
E conforme a tarde avançava, outra característica do altiplano começava a se manifestar.
O frio.
Se durante boa parte do dia o sol forte faz com que a temperatura pareça agradável, basta ele começar a baixar no horizonte para o cenário mudar completamente. O vento fica mais intenso e a sensação térmica despenca rapidamente.
Por isso fica uma dica importante para quem pretende fazer esse roteiro: mantenha sempre um casaco acessível dentro do jipe.
Não adianta deixá-lo guardado no fundo da mochila.
No altiplano boliviano as mudanças de temperatura acontecem muito rapidamente, e aquele casaco que parecia desnecessário durante o almoço pode se tornar indispensável poucas horas depois.
Enquanto vestíamos nossas roupas mais quentes e observávamos o sol descendo lentamente sobre o deserto, tínhamos a sensação de estar atravessando um cenário de outro planeta.
E o melhor era saber que as paisagens mais famosas da travessia ainda estavam por vir.
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| Arbol de Piedra |
No final da tarde chegamos à entrada da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, uma das áreas protegidas mais importantes do sul da Bolívia.
Ali foi necessário pagar a taxa de ingresso, que na época custava 30 bolivianos por pessoa.
A paisagem ao redor era espetacular, mas o mesmo não podia ser dito da hospedagem daquela noite.
Nosso destino era o refúgio próximo à Laguna Colorada, e ali tivemos o primeiro verdadeiro choque de realidade da viagem.
Até então, os alojamentos haviam sido simples, mas confortáveis. Já naquele refúgio a palavra de ordem era rusticidade.
Os quartos eram bastante básicos, a limpeza deixava um pouco a desejar, os banheiros eram precários e não havia água quente para banho. Depois de um dia inteiro enfrentando frio, vento e poeira, a perspectiva de um banho gelado não era exatamente animadora.
Sem dúvida foi o alojamento mais simples de toda a travessia.
Nosso quarto possuía quatro camas e um beliche que parecia desafiar as leis da engenharia. A cada movimento dava a impressão de que poderia desmontar a qualquer momento.
Mas o grande protagonista da noite foi o vento.
E que vento!
As rajadas eram tão fortes que pareciam querer arrancar o telhado do refúgio. Durante toda a noite escutávamos o zinco batendo e vibrando sem parar, produzindo um ruído constante que servia de trilha sonora para nossa estadia.
Em condições normais, provavelmente eu teria reclamado bastante.
Mas existe algo curioso nessas expedições pelo altiplano.
Depois de passar o dia diante de paisagens tão extraordinárias, você acaba relativizando muitos dos desconfortos. Acomodação simples, banho frio, vento e frio intenso passam a fazer parte da experiência.
Afinal, ninguém faz a travessia do Salar de Uyuni em busca de hotéis de luxo.
O objetivo é viver uma aventura.
E naquele aspecto, o refúgio da Laguna Colorada cumpria perfeitamente seu papel.
Mesmo com todas as limitações, fomos dormir felizes, sabendo que no dia seguinte conheceríamos um dos cenários mais famosos e impressionantes de toda a Bolívia.
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| Parque Eduardo Avaroa |
Apesar do cansaço acumulado do dia e das condições simples do refúgio, resolvemos aproveitar as últimas horas de luz para fazer a caminhada até o mirante da Laguna Colorada.
Foi uma das melhores decisões de toda a viagem.
A trilha não é longa, mas a altitude e os ventos constantes fazem qualquer esforço parecer muito maior. A cada passo sentíamos o ar mais rarefeito e o avanço era mais lento do que o normal. Em alguns momentos, as rajadas de vento eram tão fortes que parecia que estávamos caminhando sem sair do lugar.
Mas bastou chegar ao mirante para todo o esforço ser recompensado.
A vista é simplesmente indescritível.
Lá embaixo, a imensa Laguna Colorada exibia seus tons avermelhados que variavam conforme a incidência da luz do sol. Em contraste com as águas coloridas, centenas de flamingos se espalhavam pela laguna, criando uma cena que parecia cuidadosamente pintada à mão.
Ao redor, montanhas, vulcões e a vastidão do altiplano completavam um dos cenários mais impressionantes que já tive a oportunidade de contemplar.
Ficamos ali por um longo tempo, quase em silêncio, apenas observando.
Há lugares que são bonitos.
Há lugares que impressionam.
E há lugares que conseguem tocar algo dentro da gente.
A Laguna Colorada foi um desses lugares.
Confesso que naquele momento me emocionei.
Talvez pelo esforço para chegar até ali, talvez pela grandiosidade da paisagem ou simplesmente pela consciência de estar diante de um cenário único no mundo. O fato é que senti aquele raro arrepio que algumas viagens proporcionam quando superam todas as expectativas que criamos antes de partir.
Enquanto o sol começava a se despedir e as cores da laguna se transformavam lentamente, eu tentava gravar cada detalhe na memória.
Porque havia percebido que, por mais fotos que tirasse, nenhuma delas conseguiria transmitir exatamente o que senti naquele momento.
Foi, sem dúvida, uma das vistas mais bonitas de toda a travessia pelo Salar de Uyuni.
E uma das mais emocionantes de todas as minhas viagens.
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| Laguna Colorada |
Depois de contemplar o pôr do sol na Laguna Colorada e viver um dos momentos mais emocionantes da viagem, retornamos ao refúgio para jantar e descansar.
O jantar foi servido logo após nossa chegada. A comida estava razoável, mas, mais uma vez, a quantidade deixou a desejar. Depois de um dia inteiro enfrentando frio, vento, altitude e caminhadas, todos no grupo chegaram com bastante fome, e as porções pareciam pequenas para seis pessoas acostumadas a comer bem.
O que mais nos chamou a atenção foi que não havia possibilidade de repetir.
Quando a comida acabava, acabava.
Por isso, deixo aqui uma dica importante para quem pretende fazer essa travessia: leve alguns lanches extras na mochila. Barras de cereal, chocolates, castanhas, bolachas ou qualquer outro alimento leve podem fazer bastante diferença, principalmente nos dias mais longos e frios da expedição.
Outra recomendação que considero fundamental é levar um saco de dormir.
Além de ajudar muito nas noites geladas do altiplano, ele oferece uma sensação extra de conforto e higiene, especialmente nos alojamentos mais simples do roteiro.
No refúgio da Laguna Colorada, por exemplo, as instalações eram bastante precárias e a roupa de cama não transmitia muita confiança. Não sei dizer há quanto tempo havia sido lavada, mas certamente fiquei muito mais tranquila sabendo que dormiria dentro do meu próprio saco de dormir.
Naquela noite, o vento continuava soprando forte do lado de fora e o telhado seguia rangendo sem parar, lembrando a todos que estávamos em uma das regiões mais isoladas e inóspitas da Bolívia.
Mas, curiosamente, isso pouco importava.
A imagem da Laguna Colorada ao entardecer ainda estava viva na nossa memória e dominava todas as conversas do grupo.
Quando finalmente nos deitamos, o desconforto do alojamento ficou em segundo plano.
Afinal, alguns dos lugares mais extraordinários do mundo exigem um pouco de espírito aventureiro para serem conhecidos.
E aquela noite foi uma boa prova disso.
22 de janeiro de 2009
O despertador tocou às 4 horas da manhã. Na verdade, nem sei se conseguimos dormir direito. O frio naquela altitude era simplesmente brutal.
Ainda no escuro, arrumamos nossas coisas, embarcamos no jipe e partimos. Não houve café da manhã naquele momento, já que a refeição seria servida mais tarde, na Laguna Blanca. Portanto, fica uma dica importante para quem pretende fazer esse roteiro: leve algum lanche na mochila. Caso contrário, você ficará praticamente em jejum até por volta das 10 horas da manhã.
Nossa primeira parada aconteceu ainda antes do amanhecer, na área dos gêiseres.
Chegamos quando o céu ainda estava escuro e as fumarolas já estavam em plena atividade. Colunas de vapor surgiam por todos os lados, iluminadas pelos primeiros sinais da manhã. O contraste entre o frio intenso do ambiente e o calor vindo das profundezas da Terra tornava a experiência ainda mais impressionante.
Foi um daqueles momentos em que a natureza mostra toda a sua força.
Em seguida seguimos para um dos lugares que eu mais aguardava conhecer durante toda a viagem: a famosa Laguna Verde.
Eu estava ansiosa para vê-la.
Mas, para meu desespero, quando chegamos ela não estava verde.
Estava marrom.
Na hora pensei que tivesse acontecido alguma coisa ou que tivéssemos dado azar. Depois o guia explicou que a coloração esverdeada característica da laguna depende da ação dos ventos, que normalmente começam a soprar com mais intensidade após as 11 horas da manhã. Como chegamos por volta das 9 horas, a água ainda não apresentava aquele tom verde intenso que aparece em praticamente todas as fotografias.
Confesso que fiquei um pouco frustrada.
Afinal, era um dos cenários que eu mais sonhava conhecer na viagem. Mas faz parte. Viajar também significa aceitar que a natureza tem seus próprios horários e nem sempre se preocupa com as expectativas dos turistas.
De qualquer forma, a paisagem continuava belíssima, com o Vulcão Licancabur dominando o horizonte e a imensidão do altiplano ao redor.
Depois retornamos à Laguna Blanca, que, na minha opinião, é linda em qualquer horário do dia. Foi ali que finalmente tomamos nosso merecido café da manhã, exatamente no mesmo local onde havíamos feito nossa primeira parada ao entrar na Bolívia dias antes.
Com as energias renovadas, seguimos para a aduana boliviana.
Uma curiosidade interessante foi perceber como a paisagem havia mudado em poucos dias. Na chegada, toda a região estava coberta por neve. Agora, o cenário era completamente diferente, sem qualquer vestígio do branco que havia nos recebido na fronteira.
Os trâmites de saída foram rápidos e logo chegou o momento das despedidas.
Nos despedimos do nosso guia, Saturnino, que havia nos acompanhado durante toda a travessia. Como forma de agradecimento, o grupo resolveu fazer uma pequena coleta para presenteá-lo. A alegria estampada no rosto dele ao receber a gorjeta mostrou o quanto aquele gesto foi especial.
Pouco depois cruzamos novamente a fronteira.
Do lado chileno já havia um ônibus aguardando para nos levar de volta a San Pedro de Atacama. Antes, porém, enfrentamos mais uma vez a conhecida fiscalização chilena. Mochilas abertas, bagagens inspecionadas e aquele rigor que já havíamos encontrado na entrada do país.
No início da tarde estávamos de volta ao Hostel El Monte.
Depois de quatro dias percorrendo desertos, salares, lagunas e alojamentos simples, um banho quente parecia um luxo cinco estrelas.
Almoçamos na cidade, caminhamos sem compromisso pelas ruas de San Pedro de Atacama, visitamos algumas lojas de artesanato e aproveitamos o restante do dia em um ritmo muito mais tranquilo.
Afinal, depois de uma aventura tão intensa, nada melhor do que uma tarde sem horários, sem altitude extrema e sem estradas de terra.
Naquela noite fomos dormir cedo.
O Salar de Uyuni havia superado todas as expectativas e deixado lembranças que carregaríamos para o resto da vida.



















































































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